Animais silvestres foram recolhidos e encaminhados ao Ibama, em Porto Alegre. Aves silvestres foram localizadas no bairro Mathias Velho, em Canoas

Trinta e dois pássaros foram apreendidos pela Polícia Civil, no início da tarde de hoje, em Canoas, na Região Metropolitana, e encaminhados ao Ibama, em Porto Alegre. Um homem de 59 anos foi detido e conduzido até a 4ª Delegacia de Polícia (DP) da cidade, onde funciona o cartório especializado de Proteção aos Animais. Os recolhidos são oriundos da fauna silvestre brasileira e estavam em condições precárias, em uma garagem localizada aos fundos de uma residência no bairro Mathias Velho.

De acordo com o delegado regional da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (2ª DPRM), Mario Souza, um dos pássaros era nativo da fauna argentina. “Eles são comercializados entre R$ 500 e R$ 1 mil, quando adultos o valor pode ser ainda maior. Neste caso, eles estavam totalmente irregulares, vários eram mantidos na mesma gaiola, sem alimentação e higiene adequada”, detalha. Ele pondera que o morador da residência tinha os bichos com cunho financeiro. “Recuperamos e encaminhamos ao Ibama, que dará a destinação correta, após tratá-los”, expressa. O homem flagrado com os animais responderá por crime ambiental. Mesmo a pena sendo branda, já que gerará um termo circunstanciado, ações como essa são consideradas fundamentais, até mesmo para novas ofensivas policiais. “Percebemos que há um efeito pedagógico nesse enfrentamento. Eles não esperam que serão autuados, têm o sentimento de que não vai acontecer nada e quando vê, os policiais estão no seu endereço, é feito o registro de ocorrência”, diz.

Responsável pelo Centro de Triagem do Ibama, o médico veterinário e analista ambiental Paulo Guilherme Carniel Wagner, explica que a maioria dos animais são da fauna silvestre brasileira. “Basicamente temos aqui aves nativas, como Guaturamo, Azulão, entre outras. Como qualquer tráfico, o problema é porque tem o mercado consumidor. Nunca teria esse tipo de situação se não houvesse pessoas para ficar com elas”, afirma. Conforme ele, entre as gaiolas apreendidas pela Polícia Civil, havia cinco de capturas. Normalmente a pessoa coloca um macho embaixo, ele canta e atrai outros pássaros residentes, que tentam competir, já que não gostam da presença. “Como a arapuca está armada, na hora em que ele senta é capturado.”

Assim que foram recebidos no Ibama, já começaram a ser classificados. Foram retirados das gaiolas pequenas, tiveram a situação física avaliada, alguns foram agrupados e todos, anilhados. “Aqui na triagem, recebemos o animal impactado, estressado e há muitos casos de óbito. Fazemos o possível para que ele não adoeça. Depois, são enviados para o recinto de reabilitação, onde poderão voar e depois de cerca de dois meses, soltos.”

O analista pondera que não há como aferir quanto a ação criminosa lucraria com o comércio ilegal, porque todos os animais foram retirados da natureza. “Ele roubou a todos, porque é da União. O Trinca Ferro pode chegar a R$ 1 mil. O Azulão, R$ 300. Agora, quando começa a cantar, pode chegar até R$ 100 mil.” Ele frisa que hoje há no Estado, mais de 11 mil criadores regularizados, porém passa dos 30 mil os irregulares. Wagner orienta aqueles que querem ter um animal em casa que procure tê-lo legalmente. “Hoje é possível comprar desde um pássaro até um macaco, mas é preciso buscar aqueles que estão dentro da lei. Antes disso, avaliar se há condições de manter o bicho, já que eles vivem por um longo período. Caturritas e papagaios, por exemplo, vivem por décadas.”

Operação Arca

A ofensiva permanente desencadeada pela Polícia Civil é denominada Arca. Segundo Souza, ela foi criada após a instituição perceber a demanda do município e região. “Havia muitas denúncias de maus tratos de forma geral, então resolvemos montar a inteligência e apurar, imediatamente, toda denúncia que chega, em parceria com a 4ª DP, que mantém o cartório especializado”, explica. No fim de janeiro, no bairro Maria das Graças, também em Canoas, os policiais apreenderam cães com e sem raça, além de pássaros silvestres de diversas espécies. Todos em condições precárias. “Essa foi a primeira ação, hoje a segunda, fruto das investigações dos últimos meses. Temos uma parceria forte com a Brigada Militar de Canoas, a Guarda Municipal e também a fiscalização do município e Estado”, acrescenta. De acordo com ele, a Arca atua também nas cidades de Esteio, Sapucaia do Sul, Eldorado do Sul, Guaíba e Nova Santa Rita. Denúncias anônimas podem ser feitas através do WhatsApp, 98459-0259.